O retorno do “big stick” e a “América para os americanos”

O recente bombardeio à Venezuela, seguido pelo sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores — agora sob custódia para julgamento em Nova Iorque —, marca o capítulo mais sombrio da geopolítica contemporânea.

Plínio César Coelho*

Mais do que uma operação militar, o evento sinaliza a ressurreição definitiva da doutrina do “big stick” (grande porrete) de Theodore Roosevelt e a reafirmação agressiva da doutrina Monroe, o famoso “América para os americanos”.

​O “xerife do planeta” não está apenas de volta; ele incinerou o que restava da diplomacia multilateral e enviou um aviso claro: ninguém está fora do alcance do porrete.

​A “má conduta” e o cheiro do petróleo
​Para compreender a magnitude desta intervenção, é preciso desmascarar a justificativa ética utilizada por Washington.

Quando Theodore Roosevelt falava em intervir contra a “má conduta” de nações vizinhas, ele criava uma categoria elástica que hoje serve para camuflar interesses puramente extrativistas.

​O fator crucial: a Venezuela detém a maior reserva de petróleo do mundo (cerca de 300 bilhões de barris).

Sob a luz da doutrina Monroe, o lema “América para os americanos” revela sua face mais predatória: o controle estratégico das fontes de energia do hemisfério.

A captura de Maduro não é apenas uma punição política, mas uma operação de garantia de recursos e contenção de influências externas (Rússia e China) no Caribe.

​As bases da intervenção: Monroe e Roosevelt
​O passado que os Estados Unidos decidiram desenterrar serve perfeitamente aos seus objetivos atuais:

✓ ​Doutrina Monroe (1823): criada pelo presidente James Monroe, visava inicialmente impedir a interferência europeia no continente. Contudo, ao longo dos séculos, foi deturpada para significar que o destino dos recursos naturais da América Latina deve ser decidido conforme os interesses de Washington.

✓ ​Política do big stick (1901): consolidada por Theodore Roosevelt, baseia-se no lema “Fale macio e carregue um grande porrete”. Roosevelt estabeleceu que os EUA agiriam como um “poder de polícia internacional” para corrigir qualquer “erro crônico” em países vizinhos. O sequestro do casal presidencial é o porrete batendo na mesa para lembrar quem é o dono do hemisfério.

​A falência da ONU e o próximo alvo: a Colômbia de Petro

​A captura de Cilia Flores junto a Maduro eleva a agressão a um nível de barbárie que ignora imunidades diplomáticas e direitos humanos básicos.

Ao agir unilateralmente, os EUA ferem de morte a ordem global:

1- ONU falida: a Organização das Nações Unidas prova ser uma relíquia impotente. Se um Estado pode bombardear outro e sequestrar seus líderes sem autorização do Conselho de Segurança, a ONU não é apenas ineficiente; ela está institucionalmente morta.

2- A sombra sobre Bogotá: o pânico se instala na região. O presidente Gustavo Petro, da Colômbia, já foi explicitamente ameaçado de ser “o próximo” caso não alinhe suas políticas de segurança e controle de drogas aos ditames do xerife. O precedente venezuelano diz que a soberania é um luxo que o “quintal” dos EUA não pode mais pagar.

​ Rumo à catástrofe global

​Estamos diante de uma situação potencialmente catastrófica. O mundo não está apenas assistindo a um julgamento; está assistindo ao enterro do direito internacional em nome da hegemonia energética e política.

Quando o petróleo e as doutrinas do século 19 ditam quem deve ser bombardeado ou sequestrado, o planeta entra em uma espiral onde a única lei é a do mais forte.

O abismo nunca esteve tão próximo.

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

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