Pular para o conteúdo

Entre palanques, alianças e velhos filmes: a eleição já está nas ruas

13 minutos de leitura

Entre palanques, alianças e velhos filmes: a eleição já está nas ruas

Por Siderlandio Simões, jornalista

Campanha eleitoral tem linguagem própria. Começa no aperto de mão, passa pelo cafezinho servido em reunião de bairro, entra no carro de som, ganha as redes sociais e termina, inevitavelmente, na urna.

E a campanha deste ano já começou para valer. Os candidatos estão definidos, os grupos políticos se movimentam, os cabos eleitorais fazem contas, as lideranças medem forças e os estrategistas — sempre otimistas quando falam com seus candidatos — já desenham cenários de primeiro e segundo turno.

Este escriba já viu muito filme parecido. Mudam os personagens, mudam as siglas, mudam os discursos, mas algumas cenas continuam exatamente no mesmo lugar do roteiro. Tem candidato que começa grande e termina pequeno. Tem candidato que começa discreto e, de repente, vira fenômeno. Tem partido que jura amor eterno no primeiro turno e, no segundo, descobre enorme afinidade com quem passou a campanha inteira criticando.

Política também é a arte da reaproximação. E quem acompanha eleição há algum tempo sabe muito bem disso.

O Brasil diante de mais uma grande disputa

No cenário nacional, a eleição presidencial tende a concentrar grande parte das atenções em dois nomes: Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. São dois campos políticos fortes, organizados e capazes de mobilizar eleitorados fiéis.

Na leitura deste escriba, Flávio Bolsonaro entra na disputa com condições de fazer uma campanha muito competitiva e de crescer ao longo do processo eleitoral. Lula, por sua vez, não precisa de apresentação: é um político que atravessou gerações, disputou inúmeras eleições e possui base eleitoral consolidada em diferentes regiões do país — embora seja também, hoje, o nome com o maior nível de rejeição.

Portanto, ninguém está diante de uma eleição morna. Se Flávio e Lula chegarem ao segundo turno, preparem as cadeiras, porque o Brasil viverá novamente uma daquelas disputas capazes de transformar almoço de família em plenário legislativo.

Por dever ético, é preciso dizer que os demais candidatos também podem crescer ao longo da campanha. Mas não sejamos inguénuos: mesmo antes do pleito, a percepção generalizada é que o segundo turno repetirá a mesma polarização “lulismo x bolsonarismo”. Algo diferente disso seria, na prática, quase impossível.

Aquele tio que nunca falou de política vai aparecer com pesquisa eleitoral no telefone. A tia vai mandar vídeo no grupo da família. O primo vai dizer que tem “informação de Brasília”. E haverá sempre alguém dizendo que determinada pesquisa “não vale nada” porque o candidato preferido não apareceu na frente.

Velho filme. Mas há um ingrediente novo nesta eleição: a direita brasileira está cada vez mais conectada a movimentos conservadores internacionais. Caso lideranças estrangeiras do mundo civilizado venham ao Brasil manifestar apoio a Flávio Bolsonaro, isso pode produzir grande repercussão política e midiática. Quando digo mundo civilizado, me refiro a nações protagonistas e não regimes totalitários com os quais alguns da velha guarda socialista e comunista se apegam.

Porque campanha também é percepção. Uma fotografia ao lado de uma liderança internacional pode valer mais, eleitoralmente, do que horas de discurso. Não muda votos por si só, mas ajuda a criar ambiente — e ambiente político, meus amigos, tem peso.

Rondônia: onde a direita entra forte

Em Rondônia, a disputa pelo Governo do Estado promete ser das boas. Marcos Rogério aparece forte. Adailton Fúria também. Hildon Chaves completa um grupo de candidaturas com capacidade de movimentar diferentes regiões do estado.

Aqui, como em nível nacional, a polarização vai pesar — embora não tão forte quanto lá em cima. Se no plano nacional a percepção é de 99% de chance de segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, aqui eu diria haver 85% de chance de Marcos Rogério e Fúria disputarem o segundo turno. Ficam para Hildon Chaves e Expedito Neto os 15% restantes de probabilidade. Os demais são candidatos para se tornarem conhecidos ou para aproveitar o momento e algum protagonismo pontual — não digamos mentiras: fora esses quatro, o resto joga o “jogo do contente”.

Na observação deste escriba, Marcos Rogério larga em posição privilegiada. Tem força eleitoral, experiência nacional e ligação direta com o eleitorado conservador, que em Rondônia tem presença expressiva. Não à toda, nas eleições de 2022, Bolsonaro teve mais de 70% dos votos no segundo turno.

Adailton Fúria, porém, não entrou nessa campanha para fazer figuração. Quem conhece Cacoal sabe disso. Fúria construiu uma força eleitoral impressionante no município, a ponto de se reeleger prefeito com 85% dos votos. Ganhou eleições, montou grupo político, consolidou lideranças e agora tenta transformar esse patrimônio municipal em estrutura estadual. É aí que começa a parte interessante da história.

Porque uma coisa é ser forte em Cacoal. Outra é fazer essa força atravessar a BR, entrar em Ji-Paraná, subir até Porto Velho, chegar a Ariquemes, Vilhena, Rolim de Moura e aos pequenos municípios. Mas Fúria tem uma vantagem importante: sabe fazer campanha. Nenhum outro concorrente é tão carismático quanto ele — e político que sabe fazer campanha nunca deve ser subestimado.

Hildon Chaves, por sua vez, traz o peso político da capital. Porto Velho é o maior colégio eleitoral do estado, e qualquer candidatura competitiva precisa olhar para lá com muita atenção.

O desenho que hoje parece mais provável coloca Marcos Rogério e Adailton Fúria em condições muito favoráveis de chegar ao segundo turno. É uma leitura de momento — e eleição é movimento. Quem dorme líder pode acordar vice-líder. O vice-líder pode ser alcançado por quem vem logo atrás, e assim por diante. Quem aparece em terceiro pode crescer quando os indecisos começam a prestar atenção.

Mas há um componente que pode mexer bastante nesse tabuleiro: Flávio Bolsonaro.

Quando Brasília desembarca em Rondônia

A presença de um candidato presidencial em Rondônia nunca é apenas uma visita. Ela movimenta prefeitos, vereadores, deputados, lideranças partidárias, militância e, claro, candidatos que tentam ficar o mais perto possível da fotografia.

Se Flávio Bolsonaro vier ao estado para grandes atos em Porto Velho, Ji-Paraná e Cacoal, o impacto político será considerável. Marcos Rogério deverá trabalhar para transformar essa presença em energia eleitoral. Ji-Paraná tem importância especial nesse cenário. Cacoal também.

E aí surge uma curiosidade política interessante: Cacoal é território onde Adailton Fúria construiu enorme força eleitoral, mas também é uma cidade onde o eleitorado conservador tem grande presença.

Será uma bela disputa de narrativa. Fúria dizendo: “Aqui está o trabalho que construímos”. Marcos Rogério dizendo: “Aqui está o projeto estadual alinhado ao nosso campo nacional”.

E o eleitor, como sempre, ouvindo todos e decidindo no final.

Segundo turno e a famosa dança das cadeiras

Confirmado o segundo turno — e tudo indica que será uma disputa bastante competitiva para saber quem enfrentará Marcos Rogério —, começa outra eleição. Quem já acompanhou política sabe: o candidato eliminado na noite de domingo vira a pessoa mais importante da segunda-feira.

Os telefonemas começam cedo. Um oferece espaço no projeto. Outro lembra antigas amizades. Um terceiro descobre que as divergências “nunca foram tão profundas assim”. É bonito de ver — a política possui memória seletiva.

Neste cenário, um eventual apoio de Hildon Chaves — caso as pesquisas o confirmem como terceira, e não segunda força — pode ter grande peso. A tendência natural de aproximação entre forças de centro-direita e direita pode favorecer Marcos Rogério, principalmente se houver articulação entre União Brasil e PL.

Senado: duas vagas, quatro nomes e muita conversa

A eleição para o Senado em Rondônia será outro espetáculo à parte. São duas cadeiras — e quando existem duas vagas, todo candidato tenta convencer o eleitor de que há espaço para ele.

Fernando Máximo aparece muito bem colocado. Tem exposição, mandato, presença política e reconhecimento estadual. Na leitura deste escriba, entra na corrida como um dos nomes mais fortes.

A segunda vaga é que promete emoção. Bruno Scheid, Sílvia Cristina e Mariana Carvalho entram nesse jogo com atributos diferentes.

Bruno Scheid aposta fortemente na identidade bolsonarista — estratégia facilmente compreensível, já que em Rondônia o sobrenome Bolsonaro tem grande força eleitoral. A aproximação com a família pode gerar transferência de entusiasmo, militância e voto. Mas aí mora uma questão interessante: todo candidato quer o apoio de uma liderança popular; difícil é transformar o abraço no palanque em número na urna. Bruno tem essa oportunidade — se conseguir converter a identificação com o bolsonarismo em votos efetivos, poderá avançar bastante na disputa.

Sílvia Cristina, porém, já possui história eleitoral: tem mandato, trabalho conhecido e bases espalhadas pelo estado. Mariana Carvalho também carrega um patrimônio político significativo — conhece campanha majoritária, conhece eleição proporcional, conhece Porto Velho e possui eleitorado consolidado.

Portanto, a briga pela segunda cadeira deve ser voto a voto — e talvez uma das mais emocionantes desta eleição.

Cacoal olha para Brasília

Na Câmara dos Deputados, uma pergunta circula cada vez mais em Cacoal: a cidade voltará a ter representação federal com identidade diretamente ligada ao município?

Entre os nomes que trabalham por isso está Gil Cardoso, a Gil do Divino. E Gil está fazendo aquilo que candidato precisa fazer: andar. Política não se faz apenas com postagem bonita. Tem que entrar em bairro. Tem que sentar com associaçãos. Tem que visitar zona rural. Tem que conversar com empresários. Tem que ouvir trabalhadores. Tem que apertar a mão de quem concorda e, principalmente, de quem ainda está pensando.

Gil vem percorrendo esses espaços. Seu nome tem uma vantagem evidente: é conhecido. É filha de Divino Cardoso, personagem marcante da história política e empresarial de Cacoal. Esse sobrenome abre portas — mas quem precisa entrar por elas é a candidata. E, pelo que este escriba observa nas ruas, Gil vem trabalhando para construir seu próprio espaço.

Seu esposo, o vereador e policial civil Amarilson Carvalho, também tem participação importante nessa caminhada. Amarilson conhece a cidade, tem relações políticas e mantém contato com diferentes segmentos. Campanha é soma, e Gil parece entender isso.

Hoje, vejo sua candidatura com boas possibilidades de disputar uma das oito cadeiras reservadas a Rondônia na Câmara Federal. Cacoal tem eleitorado, importância econômica e identidade regional suficientes para sustentar uma candidatura competitiva. Resta transformar esse sentimento em voto.

Joliane Fúria e o peso de uma campanha majoritária

Joliane Fúria também aparece como nome forte na disputa federal. Ela tem ao lado um cabo eleitoral que dispensa apresentações: Adailton Fúria. E aqui não há segredo — uma candidatura ao governo forte ajuda candidaturas proporcionais ligadas ao mesmo grupo. O palanque cresce, a agenda aumenta, o candidato percorre mais cidades, as fotografias circulam, as lideranças municipais se aproximam. E todo esse movimento respinga nos aliados.

Joliane pode se beneficiar bastante disso. Mas também vem construindo presença própria — é uma candidatura que deve ser observada com atenção, especialmente se Adailton Fúria mantiver uma campanha estadual crescente.

Política também funciona por ondas. Quando a onda sobe, muita gente consegue surfar.

Pastor Moura e a busca pelo novo

Na Assembleia Legislativa, Pastor Moura apresenta uma candidatura interessante. Tem experiência administrativa, passagem por instituições financeiras e contato com diferentes municípios durante sua atuação regional no Governo do Estado. É um candidato que tenta ocupar um espaço específico: o eleitor que deseja renovação sem necessariamente apostar em alguém sem experiência. Esse é um nicho político valioso.

O discurso do “nome novo” costuma aparecer em toda eleição. Mas o eleitor, cada vez mais, pergunta: novo em quê? Novo apenas porque nunca teve mandato? Ou novo porque apresenta outra maneira de fazer política? Pastor Moura precisará responder a isso durante a campanha.

E, pelo perfil que apresenta, tem condições de construir uma narrativa positiva. É um nome que pode crescer justamente porque ainda tem espaço para ser conhecido por mais eleitores — e candidato pouco conhecido tem uma coisa que os muito conhecidos não têm: margem de crescimento.

Cássio Góis conhece o caminho

Cássio Góis entra por outra porta. Ele já sabe onde ficam os corredores. Já conhece a Assembleia, já conhece campanha estadual, já conhece o peso das alianças regionais. E tem ligação política histórica com Adailton Fúria.

O PSD tem força em Cacoal e vem demonstrando capacidade de organização eleitoral. Essa estrutura oferece a Cássio uma base importante. Reeleição nunca é passeio, mas mandato oferece visibilidade, estrutura política e possibilidade de mostrar serviço realizado.

Cássio entra competitivo. E, se o PSD mantiver sua força regional, terá boas condições de disputar novamente uma cadeira.

Paulo Henrique e a força do discurso

Paulo Henrique é outro nome que merece atenção. Advogado, ex-vereador e conhecido pela facilidade com a palavra, tem perfil que pode ganhar espaço em debates e encontros políticos. A retórica conta, mas precisa vir acompanhada de presença — e ele tem percorrido setores públicos, privados, entidades e comunidades.

Sua filiação ao PL também pode produzir um empurrão eleitoral importante, especialmente se houver campanha estadual e nacional forte da legenda. Paulo Henrique parece compreender que existe uma janela política aberta — e política é também saber identificar janelas.

Alguns passam pela porta. Outros entram pela janela mesmo. O importante é chegar à urna conhecido.

O que este escriba vê nas ruas

Depois de tantas eleições acompanhadas, uma coisa continua verdadeira: pesquisa é importante, estrutura partidária é importante, dinheiro de campanha é importante, tempo de televisão é importante, rede social é importante. Mas existe algo que continua difícil de medir: o ambiente.

Aquele comentário repetido no mercado. O nome que começa a aparecer em roda de conversa. O adesivo que surge espontâneo. A reunião que reúne mais gente do que o organizador esperava. A liderança comunitária que antes estava calada e resolve declarar apoio. Tudo isso forma aquilo que os números muitas vezes só mostram depois — e hoje a política de Rondônia entra justamente nessa fase.

Os candidatos já estão na rua. Os grupos estão definidos. As alianças começam a ficar mais claras. E o eleitor começa a prestar atenção.

Ainda veremos muito café. Muito abraço. Muito discurso. Muito candidato dizendo que “nunca viu uma recepção tão calorosa”. Aliás, essa frase merece entrar para o patrimônio histórico das campanhas eleitorais brasileiras — todo candidato, em qualquer município, sempre diz que aquela foi “a maior reunião da campanha”. Faz parte.

Este escriba sorri, anota e segue observando. Porque por trás da encenação natural da política existe algo muito sério acontecendo: o cidadão está escolhendo quem governará. Quem fará leis. Quem fiscalizará o poder. Quem representará Rondônia em Brasília.

Por isso, podemos analisar com entusiasmo. Podemos enxergar favoritos. Podemos observar tendências. Podemos até apostar politicamente em determinados cenários. Mas sem esquecer aquilo que faz a democracia funcionar: no final, o voto pertence ao eleitor. E é ele quem escreve o último parágrafo desta crônica.

Nós, escribas, apenas tentamos interpretar os capítulos anteriores.

Siderlandio Simões

Jornalista, colunista, articulista e observador atento da política loca, regional e nacional

Confira mais reportagens